criado em: 13/06/2022
https://youtu.be/RHkDQimuE10?si=W4oWHSd_GeaOAnvA
Há um discurso que tem sido repetido por médicos e outros profissionais de saúde de modo geral, que é o de que ABA (Applied Behavior Analysys) é a única abordagem baseada em evidências que traz benefício concreto para pessoas autistas.
Ativistas autistas vêm dizendo há décadas que o procedimento causa estresse pós traumático em pessoas autistas, e como todo mundo usa redes sociais, a treta é certa. Eu não tinha como deixar essa passar sem dar minhas duas patacas sobre o assunto.
Meu nome é Alexandre Costa, sou psicólogo clínico, e trabalho com autismo desde 1993, quando as redes sociais ainda nem existiam. Fundamentei o meu próprio trabalho clínico com autismo em formulações de caso comportamentais desde a virada do milênio, mas nunca trabalhei com a ABA tal como inicialmente formulada por Ivar Lovaas, e aprefeiçoada por outros autores mais recentes, por alguns ótimos motivos.
A Análise Experimental do Comportamento é uma ciência, proposta por B. F. Skinner, e que tem como base o Behaviorismo Radical, a filosofia desta ciência. E a proposta central do behaviorismo radical é a sua definição de comportamento, qual seja: comportamento é tudo o que um organismo faz. Além disso, Skinner detalha certas leis de aquisição e extinção de comportamentos, usando termos como reforço negativo e positivo, punição negativa e positiva, modelagem, modelação, reforçamento arbitrário e Intrínseco, (a lista não é exaustiva).
Então, sim, ABA é ciência. Não é ciência no sentido formal, axiomático, conceitual. Esta é a EBA, de onde deriva a terminologia usada nas formulações clínicas da ABA. Mas é uma maneira prática, simples e, na maioria das vezes, muito intuitiva, de decidir como ensinar algo (na definição do Behaviorismo Radical, os limites da terapia e da educação se fundem).
Para a EBA, quando a consequência de um comportamento é prazeirosa para o organismo, ou de alguma maneira, lhe traz benefício, a ocorrência desse comportamento aumenta de frequência. E quando um comportamento tem uma consequência neutra (ou nenhuma), ou desprazerosa para o organismo, a sua ocorrência diminui no repertório de um organismo (sim, você é um organismo, tal como um cogumelo ou um gatinho).
Essa premissa simples é a verdade fundamental da EBA. E ela é a pedra angular das formulações terapêuticas da ABA aplicada ao tratamento do autismo. Se você se assustou com a terminologia, o titio traduz pra você: quando você faz alguma coisa, e logo depois acontece algo que você acha gostoso, desejável, aceitável, você continua fazendo aquela coisa. E quando você faz alguma coisa e se lasca, ou se nada acontece, você deixa de fazer aquela coisa... Esta é a verdade intuitiva central, que a pesquisa com qualquer animal, e até mesmo com algumas plantas, demonstra. É um truísmo. Não se questiona isso. Então porque todo mundo não decide ser behaviorista e cabô a treta?
Calma, que não é com dois tapas que se esfola um bode complexo como um ser humano. O behaviorismo foi uma reação inicial às primeiras formulações da psicologia experimental, que se apoiavam fortemente na introspecção como objeto de estudo da psicologia. Como não se pode observar diretamente a experiência de outra pessoa, a observação se baseava no relato dela, que podia ser bastante ambíguo, o que é uma característica intrínseca da linguagem.
Em vez de aceitar essa complexidade, um jovem psicólogo chamado John Watson escreveu "Psicologia como um behaviorista a vê", tentando inscrever a psicologia no estatuto das ciências naturais na lei do Chico de Brito (ou seja, na marra, à força). Ele dizia que se lhe dessem 10 crianças e 10 profissões, ele poderia fazer de cada uma das 10, membros de cada uma das profissões. Não conseguiu, mas por óbvio que isso nos pareça hoje, a humanidade não nasceu sabendo que isso era impossível. Algumas pessoas intuíam que isso seria impossível. Mas agora temos a certeza. Watson deixou apenas uma criança traumatizada, o pequeno Albert, com medo de coelhos e pouco além disso.
Mas Bhurrus Frederick Skinner, não. Este era mais nerd. Ele disse que fazer o que Watson tinha dito era impossível, e por um motivo altamente plausível: Não conhecemos todas as variáveis envolvidas. No modelo de ciência delineado por ele, baseado, ainda que de modo analógico, na teoria da evolução das espécies, de que os comportamentos tinham uma relação de contingência com seus determinantes, ou seja, que eles aumentavam sua probabilidade de ocorrência, mas não os determinavam sozinhos.
Deste modo, construindo sobre as ruínas do chamado (por ele) de behaviorismo clássico, Skinner concebeu o behaviorismo radical, a epistemologia (o nome chique da filosofia da ciência, ou, mais chique ainda, das possibilidades de validação do conhecimento) da EBA.
E a EBA, em que pesem as acusações justas de baixa validação ecológica, uma vez que aplica leis derivadas do estudo de modelos animais estudados em laboratório ao comportamento humano, valendo-se da mesma licença moral concedida (até pela Igreja Católica!) à teoria da evolução das espécies, tem uma chave explicativa extremamente instrumental para boa parte do que fazemos e até pensamos e sentimos.
Independentemente de se o comportamento era ostensivo (observável) ou encoberto (privado, como pensamentos e emoções), Ele finalmente poderia ser estudado. Mas então, e o fato de a linguagem ser ambígua? foda-se. A linguagem também é comportamento, e deste modo, sujeita às mesmas leis.
Na impossibilidade de ter em conta a complexidade do funcionamento da mente humana, Skinner teve uma ideia genial a respeito dela: negar sua existência. No lugar da mente, colocou o rótulo "comportamento encoberto". Em vez de linguagem (um termo inexato, porquanto não se fala só com a língua) cunhou o termo comportamento verbal (o que, para ser congruente, inclui também o gestuário instrumental e outras expressões não vocais).
Filósofos, terapeutas, e outros pensadores não aceitariam facilmente o seu trabalho. Quem é esse nerd que vem com esqueminha de SD - B - C pra cima de moi? Outras tendências dentro da psicologia foram se fortalecendo, como a psicanálise e o humanismo. E então, a pesquisa cognitiva nos anos 50 foi se aperfeiçoando, e, não coincidentemente, à medida em que se desenvolveu a ciência da computação, outro modelo foi se modernizando e aperfeiçoando seu diálogo com as neurociências (que neste tempo nem esse nome tinham).
O Behaviorismo, que tinha ficado muito popular, principalmente no tempo da segunda guerra (reza a lenda que Skinner queria treinar pombos para jogar bombas, antecipando os drones de guerra modernos, mas os pombos nãogostaram muito da ideia e sabotaram o projeto).